Do campo a energia: O crescimento de etanol de milho e os benefícios para o produtor

Diante dos desafios impostos pela mudança do clima, o etanol se consolida como uma das principais rotas tecnológicas para uma mobilidade mais sustentável. Considerado o biocombustível com uma das menores pegadas de carbono do mundo, o etanol produzido no Brasil tem como matérias-primas a cana-de-açúcar e o milho.

O biocombustível pode ser utilizado tanto na forma hidratada, diretamente nos veículos flex, quanto na forma anidra, misturado à gasolina. Em ambas as aplicações, seu uso contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa e para a melhoria da qualidade do ar. Na comparação com a gasolina, o etanol pode reduzir em até 90% as emissões de CO₂, considerando a análise de ciclo de vida segundo dados apresentados pela ÚNICA (União das Indústrias de Cana-de-Açúcar e Bioenergia).

Os resultados acumulados também ajudam a dimensionar esse impacto. Desde 2003, ano do lançamento dos veículos flex, até março de 2025, o uso de etanol no Brasil evitou a emissão de mais de 730 milhões de toneladas de CO₂ na atmosfera. 

No Brasil, a produção de etanol de milho apresenta uma característica particular em relação a outros países: o uso predominante do milho de segunda safra. No Centro-Sul, 99% do milho produzido é proveniente dessa modalidade, cultivada principalmente após a colheita da soja. Esse modelo amplia o aproveitamento da área agrícola e permite integrar diferentes culturas ao longo do ano. Dessa forma, a produção de milho destinada ao etanol se desenvolve de maneira complementar à produção de alimentos, sem estabelecer uma competição direta entre as duas finalidades.

A indústria de etanol de milho ainda representa apenas uma parcela da demanda interna pelo grão, mas vem apresentando forte expansão. Na safra 2024/25, o setor processou cerca de 6,5 milhões de toneladas de milho e produziu aproximadamente 8,2 bilhões de litros de etanol. Segundo projeções do Ministério de Minas e Energia (MME), a produção poderá alcançar 14 bilhões de litros até 2033.

Outro diferencial do etanol de milho está no aproveitamento integral do grão. Trata-se de uma cadeia econômica circular, na qual diferentes componentes da matéria-prima são direcionados para a produção de energia, proteína, fibras e óleo. Durante o processo industrial, o amido do milho é utilizado para a produção do etanol. Ao final do ciclo, proteínas e fibras dão origem ao DDG (Distillers Dried Grains), utilizado na nutrição animal, enquanto o óleo de milho também pode ser aproveitado comercialmente.

Esse aproveitamento amplia os efeitos econômicos da atividade e cria oportunidades para outros segmentos do agronegócio, especialmente a pecuária de confinamento e a criação de aves. Assim, além de produzir biocombustível, as biorrefinarias contribuem para movimentar uma cadeia integrada de produção rural e industrial.

A expansão do etanol de milho também coloca em evidência uma discussão estratégica sobre o futuro da bioenergia brasileira. Para Amaury Pekelman, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) o crescimento dessa indústria é resultado de uma trajetória construída pelo Brasil ao longo de décadas no desenvolvimento de biocombustíveis.

“O Brasil construiu, ao longo dos últimos 50 anos, uma trajetória singular no desenvolvimento de biocombustíveis. Desde a criação do Proálcool, em 1975, a cadeia sucroenergética desenvolveu um dos sistemas mais eficientes do mundo, ao combinar produtividade agrícola, inovação industrial e sustentabilidade. Esse legado criou as bases institucionais, regulatórias e tecnológicas que permitiram, décadas depois, o surgimento de uma nova fronteira de crescimento capitaneada pelo etanol de milho”, afirmou Amaury.

Mais do que estabelecer uma relação de competição entre cana-de-açúcar e milho, a expansão do setor permite discutir as características, oportunidades e diferentes modelos de produção de cada cadeia. A combinação dessas vocações produtivas amplia as possibilidades de o Brasil avançar na produção de energia renovável em escala.

Ao mesmo tempo, a complementaridade entre cana e milho oferece uma vantagem distintiva no cenário mundial: a produção contínua de etanol ao longo de todo o ano. Enquanto a cana apresenta maior concentração de moagem em determinados períodos, o milho permite manter as usinas em operação durante a entressafra, especialmente nas biorrefinarias flex. Essa característica reduz a sazonalidade da oferta e aumenta a previsibilidade do abastecimento nacional.

Para o produtor rural, esse cenário representa a abertura de novas possibilidades de agregação de valor ao milho e de integração com outras atividades do agronegócio. Para o país, significa ampliar a capacidade de produção de energia renovável, aproveitar melhor a produção agrícola e fortalecer uma cadeia capaz de conectar campo, indústria, alimentação e energia.

O crescimento do etanol de milho, portanto, vai além da expansão de um novo mercado para o grão. Ele representa uma evolução na forma de aproveitar os recursos agrícolas brasileiros, transformando a produção do campo em energia, proteína e oportunidades econômicas ao longo de toda a cadeia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Assessoria de Comunicação – Unem: “Unem participa de painel sobre integração entre cana e milho na FenaBio 2026”. Disponível em: https://etanoldemilho.com.br/unem-participa-de-painel-sobre-integracao-entre-cana-e-milho-na-fenabio-2026/

Embrapa. Sistema de Inteligência Estratégica da Embrapa. Agropensa: “Milho”. Disponível em: https://www.embrapa.br/agropensa/agro-em-dados/agricultura/milho

ÚNICA. “Etanol, combustível do presente e futuro da mobilidade sustentável”. Disponivel em: https://unica.com.br/setor-sucroenergetico/etanol/

Texto elaborado por:

Florencia Peralta

Engenheira Agrônoma