Cada hectare conta – Como investir na fertilidade pode aumentar a eficiência da lavoura de milho

Por que duas lavouras de milho, com a mesma dose de adubo, colhem resultados tão diferentes?

Todo produtor de milho já fez essa conta: quanto mais investir em fertilidade, mais a lavoura deveria render. Mas isso só é verdade quando o solo está preparado para transformar esse investimento em produtividade. Um híbrido de ponta, a dose certa de nitrogênio e o melhor fertilizante do mercado perdem eficiência se a planta não consegue absorver o que está disponível e isso sempre começa com uma boa correção e construção do perfil do solo.

Eficiência não é a dose máxima, e sim a dose ótima

Aqui está o ponto que separa eficiência de desperdício: a produtividade cresce com a fertilidade do solo, mas o lucro do produtor não cresce na mesma proporção. A partir de um certo nível, cada quilo extra de fertilizante custa mais do que o ganho de produtividade que ele traz e a curva de lucro forma um pico no meio do caminho, não na dose mais alta possível. Investir em fertilidade não é maximizar a dose aplicada: é acertar o ponto em que o solo converte cada real investido em retorno real.

Chegar nesse ponto certo depende de uma sequência simples:

1) Diagnosticar — saber onde o solo está antes de investir;

2) Corrigir — o multiplicador de tudo que vem depois;

3) Repor com eficiência.

Passo 1 — Diagnosticar antes de investir

Nenhum investimento em fertilidade começa bem sem saber o ponto de partida. A análise de solo é o que diferencia simplesmente aplicar fertilizante de investir em fertilidade. Sem ela, é impossível saber se o fator limitante é a acidez, a deficiência de um nutriente específico ou o desequilíbrio entre nutrientes. E os níveis considerados críticos não são um número universal: variam por região, método analítico e sistema de recomendação, o que reforça por que a tabela genérica não substitui o laboratório.

O solo muda a cada safra: o que foi extraído, exportado e ciclado altera o próximo diagnóstico. Por isso monitorar uma vez e considerar resolvido é o erro mais comum. O monitoramento periódico permite acompanhar a evolução da fertilidade e ajustar o manejo ao longo das safras. Sem esse histórico, o esgotamento dos nutrientes do solo pode ser muito mais rápido do que sua reconstrução.

Passo 2 — Corrigir: o multiplicador do investimento

Em condições de elevada acidez, o Al³⁺ pode atingir níveis limitantes ao crescimento radicular. Menos raízes significam menor volume de solo explorado e menor acesso à água e nutrientes, mesmo que eles estejam disponíveis na solução do solo.

Um experimento de longa duração, conduzido por 6 anos em Botucatu (SP) comparou o investimento em nitrogênio nas doses de 0, 80, 160 e 240 kg ha-1, aplicado sobre três condições de solo: sem correção da acidez do solo, com calcário, e com calcário + gesso (Andrade et al., 2025). O resultado mostra o quanto a correção multiplica o retorno de cada quilo de fertilizante aplicado:

  • Os benefícios da correção foram particularmente evidentes sob menor aporte de N.
  • A combinação de calcário + gesso melhorou o ambiente químico do solo em profundidade.
  • Em estudo complementar no mesmo experimento, calcário + gesso + N aumentaram em 13% o estoque de C e em 20% o estoque de N no perfil de 0–60 cm, em comparação ao controle (Andrade et al., 2024).

Passo 3 — Repor com eficiência

Milho de alta produtividade exige solo de alta fertilidade

À medida que a produtividade aumenta, cresce também a extração de nutrientes pela cultura. Por isso, sustentar altas produtividades depende de diagnóstico adequado, correção do solo e reposição equilibrada dos nutrientes exportados pelos grãos (Coelho et al., 2011).

Cada tonelada de grãos de milho colhida exporta da área, em média, cerca de 14 kg de N, 8 kg de P₂O₅ e 6,5 kg de K₂O (Pauletti e Mota., 2019) , sem contar os nutrientes acumulados nas demais partes da planta. Adubar sem repor esse saldo é sacar de uma conta que nunca é reabastecida: funciona por um tempo, até que a produtividade cai e o custo de recuperar o solo fica maior do que economizou.

Embora o nitrogênio tenha grande importância para a produtividade do milho, o equilíbrio entre P, K, Ca, Mg, S e micronutrientes também é fundamental para expressar o potencial produtivo da cultura. Rotação de culturas e plantas de cobertura reforçam esse sistema, mas não substituem a correção nem a reposição planejada.

Diagnosticar, corrigir e repor com eficiência não é uma lista de tarefas é a sequência que transforma investimento em retorno.

Nutrição equilibrada: cada nutriente tem sua função

N – Nitrogênio: Crescimento, formação de proteínas e desenvolvimento da planta.

P – Fósforo: Metabolismo energético e desenvolvimento da cultura.

K – Potássio: Regulação hídrica e funcionamento fisiológico da planta.

Ca – Cálcio: Crescimento e integridade dos tecidos; papel central no ambiente radicular.

Mg – Magnésio: Componente central da clorofila; essencial à fotossíntese.

S – Enxofre: Formação de aminoácidos e proteínas; ligado ao metabolismo do N.

Zn • B • Mn • Cu – Micronutrientes:  Exigidos em menor quantidade, mas sua falta pode limitar o desempenho mesmo com os macronutrientes adequados.

Considerações finais

Altas produtividades de milho começam antes da adubação. Para que a cultura expresse seu potencial produtivo, o solo precisa oferecer condições para o crescimento das raízes, o acesso à água e a absorção equilibrada de nutrientes.

À medida que a produtividade aumenta, cresce também a demanda nutricional da cultura. Por isso, diagnosticar as limitações do solo, corrigir a acidez e construir um perfil favorável ao desenvolvimento radicular são etapas fundamentais para aumentar a eficiência dos fertilizantes e sustentar a produtividade ao longo das safras.

A reposição dos nutrientes exportados pelos grãos e o monitoramento periódico da fertilidade completam essa estratégia, evitando o esgotamento gradual das reservas do solo.

No milho, produzir mais não significa simplesmente aplicar mais fertilizante, mas criar condições para que a planta aproveite melhor cada nutriente aplicado.

Diagnosticar. Corrigir. Repor. Monitorar.

Fertilidade do solo é construção e no milho cada hectare conta.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, M. G. O.; CORDEIRO, C. F. S.; ROBERTO, A. F.; CALONEGO, J. C.; ROSOLEM,

  1. A. Lime and gypsum reduce N-fertilizer requirements and improve soil physics, fertility and crop yields in a double-cropped system. Geoderma, v. 453, 117132, 2025.

ANDRADE, M. G. O.; CORDEIRO, C. F. S.; CALONEGO, J. C.; FRANZLUEBBERS, A. J.;

ROSOLEM, C. A. Soil amendment and N fertilization strategies to improve C sequestration and storage in soil aggregates. Soil Science Society of America Journal, 2024.

COELHO, A. M.; RESENDE, A. V.; SANTOS, F. C. Exigências nutricionais e adubação. In: CRUZ, J. C.; MAGALHÃES, P. C.; PEREIRA FILHO, I. A.; MOREIRA, J. A. A. (Ed.). Milho: o

produtor pergunta, a Embrapa responde. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica; Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2011. cap. 6, p. 73–92.

EMBRAPA. Adubação e Calagem. Circular Técnica 4.

EMBRAPA. Planejamento da Adubação e Calagem. Agência Embrapa de Informação Tecnológica. PAULETTI, V.; MOTTA, A. C. V. Manual de adubação e calagem para o Estado do Paraná. 2. ed. Curitiba: Núcleo Estadual Paraná da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo – NEPAR-SBCS, 2019. 289 p.

ZANCANARO, L. et al. 2022. Recomendação regional utilizada para interpretação da fertilidade do solo.

Texto elaborado por:

Maria Gabriela de Oliveira Andrade

Dra. Eng. Agrônoma